Wednesday, June 19, 2024

DHL vai investir no atual aeroporto de Lisboa e no novo. “Vamos conviver com as duas infraestruturas”

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José Reis, CEO da DHL Express Portugal, espera “a qualquer momento” luz verde para avançar com investimento no Humberto Delgado, onde condições para manuseamento de carga são “quase indescritíveis”.

A DHL Express vai investir no Humberto Delgado mas também no futuro aeroporto Luís de Camões, revela ao ECO o presidente executivo em Portugal. José Reis explica que as duas infraestruturas vão manter-se, mesmo que o atual aeroporto de Lisboa seja desativado.

A empresa de logística alemã tem já um acordo com a ANA para avançar com um investimento de 50 milhões de euros (a preços de 2019) no aeroporto Humberto Delgado, esperando “a qualquer momento” ter o deferimento do pedido de licença de construção pela Câmara Municipal de Lisboa.

José Reis considera urgente avançar com as obras. “As condições em que nós operamos atualmente no aeroporto de Lisboa são, diria, quase indescritíveis. Eu não consigo encontrar na Europa nenhum aeroporto onde se opere com tantas dificuldades”, afirma. “Tudo isto é um problema do ponto de vista do manuseamento de carga e até mesmo da segurança das pessoas”, alerta.

O CEO da DHL Express Portugal preferia uma localização mais próxima de Lisboa para o novo aeroporto, mas considera o Campo de Tiro de Alcochete uma boa opção, desde que contemple “uma área específica para a carga, à semelhança daquilo que existe no [aeroporto do] Porto”. A empresa acaba de investir 25 milhões de euros no Francisco Sá Carneiro, obra que permitirá começar “a fazer entregas mais cedo” e também “recolher até mais tarde”.

Temos que começar por um tema que é incontornável e muito relevante para a DHL, que é o novo aeroporto de Lisboa. Ficou contente com a escolha do Campo de Tiro de Alcochete?

É uma boa opção, desde que considere aquilo que são os fundamentais da nossa atividade, que exista uma área específica para a carga, à semelhança daquilo que existe no Porto e que existe em vários aeroportos do mundo. Nós operamos em 500 aeroportos, por isso temos uma vasta experiência naquilo que é o funcionamento da carga. Aquilo que esperamos por parte do Executivo é que a carga seja, de facto, uma realidade que seja contemplada, que seja discutida e que permita manusear a carga nas condições adequadas.

Preocupa-o as acessibilidades ao novo aeroporto? É um tema que também é sensível para a DHL.

As acessibilidades são um tema importante no sentido em que nós vamos afastar-nos da cidade cerca de 40 quilómetros. Uma solução mais próxima da cidade claro que tem vantagens para a nossa atividade. Ainda assim, a solução Alcochete, se considerar aquilo que eu acabei de dizer e tiver simultaneamente acessibilidades que permitam rapidamente fazer o percurso entre Alcochete e Lisboa, para nós é o suficiente.

Uma opção mais próxima da cidade, dado que 80% da nossa atividade se concentra na Grande Lisboa, seria preferível. Ainda assim, e como disse, desde que a solução Alcochete considere todas estas necessidades da logística da distribuição, para nós é uma boa solução.

Teria preferido, por exemplo, a opção pelo Montijo, justamente por ser mais próximo.

Uma opção mais próxima da cidade, dado que 80% da nossa atividade se concentra na Grande Lisboa, seria preferível. Ainda assim, e como disse, desde que a solução Alcochete considere todas estas necessidades da logística da distribuição, para nós é uma boa solução.

Na visão da DHL, o novo aeroporto só deve estar operacional quando estiverem também já construídas todas as acessibilidades que estão previstas?

Sim, atualmente também já se faz referência a uma terceira ponte [sobre o Tejo], o que seria vantajoso. O acesso à outra margem tem que ser suficientemente robusto, de forma a que nós não corramos o risco de ficar impedidos de atravessar o rio Tejo, porque há uma ponte que em determinado momento está bloqueada com um acidente. Uma terceira via facilita também a nossa atividade, assim como facilita a vida das pessoas em geral.

De preferência uma ponte rodoferroviária.

Enquanto cidadão, parece-me que faz todo o sentido, embora do ponto de vista daquilo que é a nossa atividade não é fundamental. [Preferia] uma solução com ferrovia e simultaneamente com rodovia.

José Reis, CEO da DHL Express Portugal, em entrevista ao ECO.Henrique Casinhas/ECO

Quando houver um novo aeroporto em Alcochete, com uma infraestrutura para carga aérea, isso poderá aumentar significativamente o transporte de carga em Portugal? Tem alguma estimativa?

O modelo económico português assenta sobre a internalização da economia, pelo que é necessário criar as infraestruturas necessárias para que os exportadores possam rapidamente colocar as suas mercadorias nos mercados internacionais. A decisão de um novo aeroporto é uma boa decisão e ela deve contemplar tudo aquilo que são as necessidades da nossa atividade. Por exemplo, nós criamos recentemente no Porto uma nova capacidade, num investimento de 25 milhões de euros, que permite aos exportadores estar mais perto dos mercados internacionais. Para mim, não é concebível nós termos um modelo económico que assenta sobre a internacionalização das empresas e não ter as infraestruturas necessárias para que os exportadores, e até mesmo os importadores, possam estar mais perto dos mercados.

Esse investimento de 25 milhões de euros no Porto já está concluído?

Está concluído. Estamos a estabilizar a operação e vamos fazer a inauguração formal no dia 17 de setembro. Nós triplicámos a capacidade de processamento de carga no aeroporto do Porto. É uma infraestrutura do melhor que há na Europa, com acesso ao lado ar, com capacidade para processar carga atualmente e nos próximos 15 anos. Estamos a dar ao Norte uma capacidade que vai permitir exportar com outro tipo de eficiência.

[Investimento no Porto] vai-nos permitir fazer entregas mais cedo, porque nós processamos a carga mais rapidamente, e vai-nos permitir também recolher até mais tarde.

Estamos a falar de um aumento de quanto na capacidade de carga?

Na parte da exportação, nós aumentamos a nossa capacidade em cerca de 300% e na importação aumentamos em cerca de 150%. Isto habilita-nos a movimentar um volume de carga muito maior.

Mais carga e também em menos tempo?

Em muito menos tempo. É uma infraestrutura state of the art, toda automatizada e vai-nos permitir fazer entregas mais cedo, porque nós processamos a carga mais rapidamente, e vai-nos permitir também recolher até mais tarde. O norte é bastante industrializado, muitas vezes é necessário fazer recolhas mais tarde e com esta capacidade nós vamos poder oferecer isso ao mercado do norte.

Quando houver um novo aeroporto em Lisboa, vai ser necessário fazer um investimento da mesma magnitude ou superior?

Nós temos previsto fazer um investimento no atual aeroporto de Lisboa. Um investimento de 50 milhões euros, isto a preços de 2019, porque nós andamos a discutir isto há algum tempo e ainda não conseguimos criar as condições necessárias para avançar. É uma infraestrutura que permitirá também dar esse nível de eficiência às exportações na área sul. Isto, sem prejuízo, claro está, quando tivermos um novo aeroporto, de termos aí também que criar uma infraestrutura. A nossa ideia, porque pensamos isto sempre a médio e longo prazo, é ter uma infraestrutura no aeroporto atual e uma infraestrutura do novo aeroporto. E vamos conviver com as duas. Mesmo no momento em que o aeroporto Humberto Delgado deixe de operar, nós vamos manter a infraestrutura, porque nós precisamos de ter proximidade com a cidade.

Mesmo que o aeroporto Humberto Delgado possa só durar mais cerca de dez anos?

Este será sempre um projeto a 20, 25 anos. No caso de se descontinuar o aeroporto, nós permaneceremos nessa localização. Serão instalações de segunda linha, sem acesso ao aeroporto, mas que dada a proximidade com a cidade, tem grandes vantagens. Serve à mesma como centro logístico.

José Reis, CEO da DHL Express Portugal, em entrevista ao ECO - 29MAI24
José Reis, CEO da DHL Express Portugal, em entrevista ao ECOHenrique Casinhas/ECO

O que é que falta para esse investimento avançar?

Nós temos com um acordo com a ANA, temos o terreno identificado, temos vindo a discutir o tema com a Câmara Municipal de Lisboa e tem havido recetividade. Pensamos que a qualquer momento vamos ter o deferimento do pedido de licença de construção.

Ainda este ano?

É essa a nossa expectativa. Achamos que ainda este ano vamos ter esse deferimento, porque isto é importante para a DHL, é importante para os exportadores, para os importadores e para os consumidores em geral. Não vejo como é que podemos dar esse passo de internacionalização sem termos infraestruturas capazes de responder a essas mesmas necessidades.

Vê então com bons olhos a intenção de reforçar a capacidade do aeroporto Humberto Delgado, com um aumento do número de voos?

Parece-me que aquilo que está a ser pedido faz todo o sentido porque é importante ou é necessário acomodar os crescimentos dos próximos dois anos. Estamos a falar num aeroporto de Alcochete no horizonte de 10 a 12 anos. Entretanto vamos ter que conviver com esta realidade de crescimento do turismo e também da carga, por isso, este investimento e essas adaptações que se irão fazer no aeroporto Humberto Delgado seguramente que fazem todo o sentido.

As condições em que nós operamos atualmente no aeroporto de Lisboa são, diria, quase indescritíveis. Eu não consigo encontrar na Europa nenhum aeroporto onde se opere com tantas dificuldades.

O Aeroporto Humberto Delgado neste momento já é uma restrição ao aumento do turismo na região de Lisboa porque, na prática, há um limite ao número de passageiros que podem chegar através do aeroporto. Também já é uma restrição ao transporte de carga?

Se estamos a falar de voos, ainda não é um problema, porque os voos especificamente de carga são muito poucos. A DHL opera no seu ciclo de importação e exportação com sete voos diários. Isto representa muito pouco em comparação com aquilo que são os voos comerciais. É importante realçar que os voos comerciais também trazem carga pesada, muita carga.

Mas gostava de ter mais faixas horárias (slots) para voos só de carga?

Nós não vemos para já essa necessidade. Aquilo que nós gostávamos de ter é melhores condições para operar. As condições em que nós operamos atualmente no aeroporto de Lisboa são, diria, quase indescritíveis. Eu não consigo encontrar na Europa nenhum aeroporto onde se opere com tantas dificuldades.

Que dificuldades são essas?

As instalações são muito antigas, não há espaço. Tudo isto é um problema do ponto de vista do manuseamento de carga e até mesmo da segurança das pessoas. E, na DHL, a segurança vem sempre em primeiro lugar, é um dos nossos lemas. Temos que fazer muitas vezes, entre aspas, das tripas coração, de forma a que nada aconteça de grave às nossas pessoas. Por isso, é urgente criarem-se condições para que empresas como a DHL possam operar de uma forma segura e simultaneamente rápida para responder às necessidades do mercado.

Diria que é um dos piores aeroportos da Europa?

Nesse aspeto, sim, é um dos piores da Europa. Mas acho que há uma consciência coletiva em relação a isso.

A concessionária, a ANA, está consciente dessas dificuldades?

A ANA/Vinci está consciente dessas dificuldades. Isto é transversal, afeta todos, mas ainda assim, não é por causa disso que nós não devemos pensar de forma às vezes um bocadinho mais ousada e pôr as coisas a andar mais rápido de forma a que a economia não perca, que os consumidores não percam, que os importadores não percam, que os exportadores não percam.

Estão previstos outros investimentos parte da DHL em Portugal?

Além destes no Porto e em Lisboa temos outros projetos em infraestruturas de menor calado, sobretudo adaptações. Estamos também a fazer a transição carbónica da nossa frota. Adquirimos há cerca de um mês 44 veículos elétricos operacionais, que vão operar sobretudo nas grandes cidades, por questões de autonomia. Desde janeiro de 2023 que não compramos nenhum carro serviço que não seja elétrico. As nossas instalações construídas de raiz têm neutralidade carbónica e utilizamos nos nossos aviões o Sustainable Aviation Fuel (SAF). Além disso, temos software instalado para fazer a estiva, ou seja, a distribuição da carga nos aviões, que nos permite reduzir o consumo de combustível em 18%. Em Portugal até vamos ultrapassar as metas definidas pelo grupo e em 2025 teremos 70% da nossa frota eletrificada.

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